2020 será decisivo para modelo do futebol brasileiro

Por Valor Econômico

A festa rubro-negra do Flamengo, que recebe hoje a taça de campeão brasileiro e
pode terminar o ano com a conquista do mundo no Catar, após vencer a
Libertadores, consagra o entendimento de que força e capacidade financeira, com
boa gestão, alteram o placar. Não garantem título, mas aumentam a chance.

Contudo, com raríssimas exceções, o Brasil está para lá de atrasado no debate sobre
profissionalização e organização das finanças no futebol. Há assuntos que parecem
até proibidos, como se a razão não pudesse conviver com a paixão quando o tema é
a camisa.

Mas, queiram os apaixonados ou não, as finanças dos clubes entrarão de forma
definitiva no roteiro esportivo em 2020. E, junto com o equilíbrio das contas, o
debate sobre clubes se transformarem em empresas ou criarem companhias
exclusivas para o futebol, atraindo investidores, está na ordem do dia.

O vitorioso clube da Gávea passou por uma troca importante de gestão há seis anos
e reduziu a dívida de R$ 750 milhões a R$ 460 milhões. Dessa forma, conseguiu
investir R$ 190 milhões no ano passado, vindo de um piso de R$ 22 milhões em
2014, quando a nova administração fez secar a torneira para dar conta dos
compromissos. Dos números, ninguém foge.

Ainda neste ano, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deve anunciar um
programa ratings para avaliar a situação econômica de cada clube. Conhecido como
Fair Play Financeiro, o modelo de fiscalização já é aplicado pela União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) e visa cultivar a responsabilidade financeira, para promover um ambiente saudável. (Veja mais em Clubes terão rating financeiro acompanhado pela CBF).

A discussão também vem rapidamente ganhando corpo no Congresso Nacional —
embora com participação tímida ou quase nula dos protagonistas, os clubes. Há
dois projetos de lei em marcha que tentam criar caminhos para que cada time
possa equilibrar suas contas, viabilizar uma mudança de tipo social para empresa
com avanços em governança. Os textos têm orientações diversas e, cada qual, um
padrinho político peso-pesado em Brasília.

A dobradinha ‘Fair Play e modelo empresarial’ já começou a
criar o dilema de tostines: virar empresa deve vir depois de
arrumar as contas ou é o caminho para isso?

O debate precisa dar conta de duas fragilidades para mudar o panorama do esporte
mais popular do país —e, por isso, com maior potencial econômico. Sem dúvida, a
gestão financeira, foco da discussão, problema que coloca clubes tradicionais como
o Botafogo à beira do abismo, é um deles. Mas não é suficiente. A estrutura política
dos clubes, que remonta ao período do futebol amador do século XX em muitos
casos, está na berlinda. Resolver a governança, portanto, está nesse mesmo pacote.

Hoje, a isenção que os clubes possuem para impostos corporativos — por serem
associações sem fins lucrativos — e a falta de visão de negócios dos dirigentes são
unanimemente apontados como os dois grandes entraves para a adesão ao modelo
empresarial. E a falta de percepção coletiva dos clubes, que seguem rivais fora dos
campos, o motivo para a discussão não ser mais rápida e eficiente para os próprios.

No Congresso, o projeto que parece mais avançado no momento é o relatado pelo
deputado Pedro Paulo (DEM-RJ), que tinha votação em plenário prevista para ontem
(sem resultado até o fechamento desta edição). Mas, nem de longe, agrada a todos.

Exceto os clubes que o veem como uma tábua de salvação — como os de situação
financeira calamitosa —, a avaliação é que a proposta vai criar uma diferença
significativa e artificial entre os clubes. O pilar do projeto é criar incentivos para que
os clubes abandonem a forma associativa e se transformem em empresas.

A proposta de Pedro Paulo é apoiada pelo presidente da
Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e prevê facilidades
tributárias, adesão imediata à recuperação judicial e
possibilidade para captação de recursos incentivados aos
clubes que se transformarem em empresas (sejam elas
limitadas ou sociedades anônimas).

Críticos da proposta argumentam que um novo Refis (o último perdão de dívidas é
de 2015) é um prêmio a clubes que não cumprem as obrigações, na contramão do
exemplo do Flamengo, que ficou anos sem títulos de expressão até reorganizar a
casa. O projeto do deputado também enfrenta resistências do Ministério da
Economia.

Veja resumo do projeto clube-empresa do deputado Pedro Paulo

Um segundo projeto de lei, que conta com a simpatia do governo, está no Senado.
Registrado pelo senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), a proposta de lei prevê a
criação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), que abre caminho para a criação do
Novo Mercado do Futebol e tenta formar um ambiente seguro para atrair
investidores. O modelo se inspira no que a bolsa fez, só que pela via da
autorregulação, com a criação de um segmento especial de governança, na tentativa
de restabelecer a confiança dos investidores no mercado de ações brasileiro.

O texto desse projeto é dos advogados Rodrigo Monteiro de Castro e José Francisco
Mansur, que há cinco anos se dedicam a criar formas de aproximar o futebol de
investidores privados. Especializado em legislação societária, Monteiro de Castro
explicou ao Valor que a SAF permitirá que os clubes ofereçam um ambiente estável
para atrair investimentos — seja na forma de sociedade ou de emissão de dívida. O
esforço do senador Pacheco tem apoio de Afif Domingos, secretário do ministro da
Economia Paulo Guedes e designado por ele a cuidar do tema.

“A SAF é voluntária e tem vários caminhos. O clube pode
migrar de modelo e ser empresa ou pode se manter clube e
ser dono da empresa de futebol”, explicou o advogado. A
proposta está na Comissão de Assuntos Econômicos do
Senado e, após a tramitação, segue para a Comissão de
Educação, Cultura e Esporte, com decisão terminativa, sem
necessidade de ir a plenário. Cumprido o rito, vai à Câmara.

Veja resumo da proposta do senador Rodrigo Pacheco

O conteúdo focado em economia tem conquistado apoio De participantes do
mercado de capitais atentos ao momento em que a paixão se tornará oportunidade
— dado o potencial do Brasil como mercado consumidor e fonte de talentos.

“Se houver uma legislação segura, que traga também governança, eu sou
comprador”, afirmou Marcos Duarte, sócio fundador da gestora Polo Capital,
usando a expressão máxima do mundo financeiro para demonstrar interesse de
investimento. “Há um indústria bilionária de investidores especializados lá fora.
Estamos perdendo tudo isso”.

A gestora carioca foi pioneira em produtos financeiros quando lançou, em 2012, um
fundo de recebíveis dos direitos pagos pela TV Globo pelo Campeonato Brasileiro,
como forma de antecipar receita aos clubes. A carteira vem sendo renovada ano a
ano e já mobilizou entre R$ 600 milhões e R$ 700 milhões nesse período. Duarte
conhece de perto o drama da má gestão dos clubes. Na visão dele, só a
profissionalização, com uma gestão empresarial, pode salvar o futebol nacional.

Rodolfo Richter, presidente do banco Brasil Plural, também acompanha o
desenvolvimento do tema com interesse. “Existindo produtos robustos disponíveis,
há muita gente para investir e muita coisa para explorar”, afirmou. Por produtos,
entende-se desde títulos de dívida até ações e outras estruturas.

“O produto seleção brasileira está perdendo charme, em
parte como reflexo da desorganização do tema no país, e
com isso, enormes oportunidades. No mundo, o futebol já é
um grande produto. Os clubes estão acomodados e os
torcedores ainda não entenderam a dinâmica”, disse o
presidente do Brasil Plural.

Enquanto o faturamento da UEFA, entidade máxima do futebol na Europa, foi de 2,8
bilhões de euros no ano passado, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) teve
receita equivalente a 140 milhões de euros. O Brasil, exportador de pé de obra,
respondeu por aproximadamente 10% das transações com jogadores do mundo no
último ano.

 

Publicado originalmente em  27/11/2019 em Valor 

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