Combinação de tecnologia e cultura reduz fraudes

Por Valor Econômico

O avanço da tecnologia oferece ferramentas poderosas para a auditoria das empresas no combate a fraudes. O desenvolvimento de programas de mineração de dados permite o monitoramento constante das atividades, ajudando a identificar indícios de corrupção com maior antecedência, não apenas internamente, mas também em fornecedores e terceirizados.

No entanto, a tecnologia ainda não é capaz de impedir que pessoas encontrem incentivos para tentar enriquecer ilicitamente ou galgar posições praticando atos ilícitos, diz Robert Hirth, um dos principais especialistas em combate a fraudes no mundo.

“A auditoria interna precisa vir para a próxima geração. Precisa ser mais eficiente em termos de pessoal e de tecnologia”, afirmou Hirth ao Valor.

Hirth possui larga experiência no tema de combate a fraudes. Ele é ex-presidente do Comitê de Organizações Patrocinadoras da Comissão Treadway (Coso, na sigla em inglês). Fundado em 1985 por representantes de cinco entidades, como a Associação Americana de Contabilidade (AAA) e o Instituto de Auditores Internos (IIA), o Coso é uma entidade sem fins lucrativos dedicada à melhoria das demonstrações financeiras com ênfase na conduta ética, efetividade dos controles internos e governança.

Os parâmetros criados pela organização para lidar com riscos empresariais e controles internos acabaram sendo adotados pelo governo dos Estados Unidos para as companhias de capital aberto depois da aprovação da lei Sarbanes-Oxley, em 2002. O texto estabelece regras para governança relativas à elaboração de demonstrações financeiras.

A lei foi aprovada na esteira do caso Enron, um escândalo contábil que abalou o mercado de capitais americano em 2001. Hirth era sócio da Arthur Andersen, que auditava os balanços da empresa de energia. A Andersen foi acusada de obstrução da Justiça quando seu escritório de Houston destruiu documentos relacionados à Enron. A firma começou a perder clientes e, rapidamente, fechou as portas.

Um dos principais protagonistas do caso foi David Duncan, auditor responsável pela conta da Enron, que teria ordenado a destruição dos documentos.

Hirth conhecia Duncan e, para ele, o episódio mostrou como uma pessoa gananciosa é capaz de derrubar uma organização centenária como a Arthur Andersen, que estava entre as maiores auditorias do mundo. Hirth esteve na auditoria por 26 anos, até o seu fechamento.

O caso mostrou também que o sistema de cobrança e a recompensa por resultados pode estimular maus funcionários a praticarem fraudes, caso não se tenham os mecanismos necessários de dissuasão.

“A Enron era o maior cliente da Andersen, e David Duncan era um sócio júnior. A forma como incentivávamos sócios, à medida que iam bem, era distribuir cotas, o que provavelmente aconteceu com David. E o escritório, quando você tem um grande cliente e o escritório vai bem, recebia mais [recursos]”, afirmou.

A responsabilização de executivos, incluindo a possibilidade de prisão, é vista por Hirth como uma importante forma de dissuasão, algo presente na Sarbanes-Oxley. Ao exigir que os principais executivos atestem seu compromisso com o combate a fraudes e que as demonstrações financeiras passaram por minuciosa auditoria, sob o risco de condenação penal, a lei ajudou a reduzir o número de fraudes e reapresentação de balanços.

“O diretor-presidente não pode ter liberdade para fazer qualquer coisa em contabilidade. O diretor financeiro não deveria poder fazer as suas entradas [de custos e gastos no sistema de controle]”, afirmou. “Multas e sanções para fraudes precisam ser altas. Quanto mais duras ficam as sanções, você vê que a incidência de fraude recua.”

Considerando os parâmetros de governança criados pelo Coso, Hirth faz críticas ao relatório 20-F, documento que empresas internacionais com ações e recibos de ações (ADRs) listados nos Estados Unidos, precisam entregar ao regulador de mercado americano (SEC). Segundo ele, muitos relatórios trazem poucas informações sobre os controles internos. “É uma questão cultural, de capacidade, o que se perde na tradução, e pelo que eu vi tem muitos problemas nas companhias do 20-F”, afirmou.

Ele entende que uma eficiente estratégia de combate a fraudes passa pela combinação de mecanismos de controle, o que inclui tecnologia, com uma cultura ética nas companhias, que precisa ser constantemente reforçada, para prevenir mal-feitos. “O primeiro princípio [para controlar fraudes] é a companhia demonstrar
compromisso com princípios e valores íntegros. E para isso é preciso uma cultura de abertura e honestidade”, afirmou.

No entanto, nem toda a tecnologia do mundo e treinamento será capaz de reduzir a zero os casos de fraudes nas empresas, porque ainda existirão pessoas dispostas a burlar os mecanismos de controle. Além disso, dependendo dos custos, algum tipo de fraude acabará passando.

“Você não consegue reduzir [a zero], mas você pode se perguntar, por meio da avaliação de risco, quanto de fraude é aceitável. Mesmo se eu não gosto de fraude, eu estou disposto a aceitar US$ 5 de fraude em meu balanço? Talvez sim, porque custará mais de US$ 5 para achar a fraude de US$ 5”, disse Hirth. “Eu acredito que o conceito de dissuasão de fraude, mais do que eliminação de fraude.”

 

Publicado originalmente em 08/10/2019 em Valor 

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