Franquias de escolas de música crescem no país
A ideia de tocar bateria nunca saiu da cabeça de Fabrício Anias. Aprendeu a tocar outros instrumentos quando era criança, como guitarra e violão, mas o sonho de segurar as baquetas sempre esteve na mente de Fabrício, hoje com 42 anos e presidente de uma empresa de engenharia. A oportunidade veio há quatro anos, quando a filha Gabriela, na época com oito anos, quis aprender a tocar guitarra. “Entrei na escola de música para matricular minha filha, e saímos de lá os dois matriculados: ela em guitarra, eu em bateria”, lembra.
Histórias como a do empresário ajudam a compor a demanda crescente por escolas de música privadas, que se expandem no país. Hoje com 13 unidades em funcionamento, a americana School of Rock vai chegar a 22 escolas até dezembro – o dobro do que tinha no ano passado. O plano é atingir pelo menos 100 até 2027. Das novas unidades a serem abertas este ano, oito serão no Rio de Janeiro. Mas a propagação das escolas não se limita apenas à School of Rock ou ao Estado fluminense. Outras franquias como Bateras Beat, de São Paulo; Minueto Centro Musical, de Minas Gerais, e Elite Musical, do Rio, também preparam novas unidades.
Existem em torno de 8,5 mil escolas de música no país atualmente, segundo estimativas da musicista Valéria Forte, diretora da Central de Apoio às Escolas de Música (Caem). O desenvolvimento das unidades tem sido tão expressivo nos últimos anos que a entidade prepara estudo com dados atualizados sobre faturamento do setor a ser divulgado em novembro. “O sistema de franquias foi bem aceito pelo setor. Foi um agente facilitador para um ensejo profissionalizante da área”, afirmou ela.
Eoi por meio de franquias que a School of Rock, que inspirou filme e musical da Broadway nos Estados Unidos, decidiu se expandir no Brasil, afirmou Paulo Portela, responsável pela marca no país. A escola, que trabalha desde musicalização infantil até formação de músicos adultos, com alunos que vão desde 3 até 80 anos, chegou ao país em 2013. A companhia aumentou em 28% os investimentos no mercado brasileiro em 2019, na comparação com o ano passado, para R$ 3,8 milhões. A procura em alta deve render frutos: com as novas unidades, a previsão é de faturar R$ 14,3 milhões este ano, quase o triplo de 2018 (R$ 4,8 milhões). A holding americana, com 34 mil alunos em dez países, não revela faturamento.
Um dos aspectos que contribuíram para o crescimento da School of Rock no Brasil é não se ater apenas a um estilo. “Todas as escolas tem, no núcleo básico, instrumentos de rock. Mas têm liberdade de ir para outros estilos, piano clássico por exemplo, se tiver demanda”, afirmou Portela. Atender a todos os estilos também foi a resposta do músico Dino Verdade. Ao montar a marca Bateras Beat em 1982 em São Paulo, oferecia cursos apenas de bateria. Mas em 2012 abriu para outros instrumentos. “Temos guitarra, ukulele, saxofone e, entrando agora, viola caipira”, disse ele, que prevê 32 unidades até o fim do ano, ante 28 em 2018. “Em 2020 queremos chegar a 80 escolas”, afirmou.
A estratégia de expansão da Bateras Beat, aliada a atendimento a todos os estilos, parece estar dando certo. De agosto de 2018 a agosto 2019 o faturamento chegou a R$ 15,6 milhões, aumento de 15% ante igual período imediatamente anterior. “A música no Brasil tem ganhado, cada vez mais, um caráter profissional e isso faz com que [o mercado] seja valorizado”, disse.
Daniel Bottrel, sócio da Minueto Franquias de Escola de Música, de Minas Gerais é um exemplo de profissionalização no segmento Ele mesmo iniciou seu negócio, em 1999, em um quarto nos fundos na casa de sua avó, com aulas de percussão, até montar a atual estrutura de sua marca, com adesão ao sistema de franquias a partir de 2014, e rede de 800 a mil alunos. “Sempre existiram os que querem aprender a tocar instrumentos. Mas as pessoas aprendiam com outras soluções, como escolas de ‘fundo de quintal’ e professor particular”, afirmou o percussionista. Hoje com quatro unidades da marca, e faturamento mensal de R$ 60 mil a R$ 70 mil, prevê abrir mais sete escolas até o fim de 2020.
Diferente da School of Rock e da Bateras Beat, o rock não foi o que impulsionou a Minueto no mercado. “O Minueto sempre teve instrumentos eruditos, como saxofone, violino e um dos cursos mais disputados é o de flauta”, disse Bottrel. Atender à demanda fora do rock, como de evangélicos e amantes de pagode, ajudou as escolas de música a se manterem firmes em tempos de crise, afirmou Filipi Peclat, diretor de comunicação da Elite Musical. A marca, que começou em 2007 no Rio e conta com 13 unidades no país e rede de 4 mil alunos, tem faturamento mensal que pode girar entre R$ 3 mil até R$ 173 mil por unidade, a depender do tamanho da escola. A meta é chegar a 30 escolas no país. “Tem mercado. Há muitas pessoas que querem estudar música”, afirmou.
O empresário Fabrício Anias concorda. “Eu chego em casa, à noite, toco bateria por 30 minutos, 40 minutos. E desligo de todos os problemas”, afirmou. “A música traz aquele equilíbrio que todo mundo quer ter. Vale a pena.”
Publicado originalmente em 16/09/2019 em Valor