WeWork aborta IPO e deixa cofundador frustrado

Por Valor Econômico

O presidente-executivo da WeWork, Adam Neumann disse ter ficado “abatido” com a abortada oferta pública inicial de ações (IPO) de seu deficitário grupo imobiliário, admitindo que precisa aprender algumas lições sobre como gerenciar uma empresa de capital aberto. Em uma “webcast” transmitida ontem, horas após a WeWork ter engavetado sua ansiosamente aguardada listagem, Neumann expressou seu pesar sobre a condução da operação de abertura de capital, segundo informaram fontes que viram a apresentação.

Neumman, 40, cofundador da companhia, disse que acredita saber como administrar uma empresa de capital fechado, mas desde que recebeu comentários sobre a função que ele teria que desempenhar como líder de uma empresa que logo teria o capital aberto, ficou em dúvida. Em meio a recriminações ao processo frustrado, uma fonte que trabalhou de perto com Neumann disse que sua personalizada descomunal teve “um grande papel nisso”. Os fracos negócios com as ações de outras empresas inovadoras que abriram o capital, como os aplicativos de transporte Uber e Lyft, contribuíram para a decisão de Neumann de adiar a IPO, na tentativa de evitar a mesma estreia turbulenta, segundo afirmaram fontes próximas de Neumann.

Após sua apresentação, Neumann não respondeu perguntas dos funcionários, que apenas observaram enquanto os consultores da WeWork reduziam o valor da companhia, de US$ 47 bilhões, numa tentativa de atrair o interesse dos investidores. Também participaram a “webcast” Miguel McKelvey, cofundador e diretor de cultura da WeWork, e Artie Minson, diretor financeiro, com os três executivos prometendo aos funcionários que a IPO será concluída ainda este ano. A WeWork não quis fazer comentários. A decisão de última hora de adiar a IPO, tomada na noite de segunda feira, repercutiu no mundo dos investimentos em participações e provocou uma grande queda nos bônus da WeWork ontem.

Num sinal da pressão financeira que a WeWork vem sofrendo, o rendimento da dívida de US$ 702 milhões da companhia com classificação “junk” [abaixo do nível de investimento] subiu para o patamar recorde de 8,9% ontem, segundo a plataforma de negociação de bônus MarketAxess. Quando a companhia tomou emprestados os US$ 702 milhões no ano passado, o rendimento dos papéis foi de 7,875%. A WeWork planejara lançar seu “roadshow” para a listagem nesta semana e as ações seriam vendidas ao público na semana que vem. Mas o grupo se deparou com uma recepção fria dos investidores e não está claro se ele será forçado a adiar a listagem
para 2020 ou depois, segundo disseram fontes a par dos acontecimentos.

Os potenciais investidores levantaram uma série de preocupações com a companhia e seus consultores no JP Morgan Chase e Goldman Sachs, inclusive sobre a escala das perdas crescentes da WeWork, sua estrutura corporativa complexa e o poder que Neumann tem sobre a companhia. A WeWork queimou capital ao empreender uma expansão global que levou seus espaços compartilhados de trabalho para mais de 110 cidades. No primeiro semestre de 2019 a companhia informou desembolsos de capital de quase US$ 2,6 bilhões para operar e investir em seus negócios, quase igualando os gastos nesses quesitos durante todo o ano de 2018.

Seus prejuízos aumentaram juntamente com o crescimento da sua base de vendas; a companhia perdeu cerca de dois dólares para cada dólar de receita gerado no ano passado. A WeWork foi pressionada por seu maior apoiador, a SoftBank do Japão, para adiar a listagem depois que potenciais investidores demonstraram um interesse apenas mediano pela abertura de capital da companhia. A resposta fraca persistiu mesmo depois que os consultores da WeWork testaram uma avaliação do grupo entre US$ 15 bilhões e US$ 18 bilhões, bem abaixo da avaliação de US$ 47 bilhões estabelecida para a companhia pela SoftBank em janeiro. John McClain, gerente de portfólio da Diamond Hill Capital Management, disse não se lembrar de outra empresa “unicórnio” – como são chamadas as startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão – que teve “apoio zero dos investidores em dívida ou ações”.

“O modelo deles de tomada de empréstimos está seriamente em dúvida a esta altura”, acrescentou ele. “Não há um nível em que poderíamos ter interesse em ter participação nessa companhia com base em seus negócios, sua governança e suas demonstrações financeiras.” Barry Oxford, analista da corretora DA Davidson, disse que o valor da empresa deverá cair para menos de US$ 10 bilhões, dada sua “suscetibilidade a uma recessão, ao atual ritmo de queima de caixa, estrutura corporativa e governança corporativa”. A WeWork tentou resolver algumas das questões levantadas pelos investidores para finalizar a IPO antes do fim de setembro, prazo que Neumann estabeleceu para a companhia e seus consultores. O grupo enfraqueceu as ações de alto poder de voto de Neumann, que lhe dão o controle da companhia, e decidiu acrescentar um novo membro ao seu conselho de administração. Entretanto, investidores disseram que as mudanças não foram amplas o suficiente e não compensaram suas preocupações com o modelo de negócios da empresa.

Publicado originalmente em 18/09/2019 em Valor

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